Bahia pode ter artefato judeu do séc. 17

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A historiadora Suzana Severs, do grupo de pesquisa responsável pela descoberta, explica que a mikvé deve ter a mesma idade do casarão onde foi construída, datado da segunda metade do século 17. Se a hipótese for confirmada, ela é quase tão antiga quanto Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas, localizada no Recife e construída na primeira metade do século 17.

Ao contrário da sinagoga pernambucana - edificada durante o período de tolerância religiosa da dominação holandesa -, a mikvé baiana surgiu provavelmente sob as sombras da perseguição desencadeada pela Inquisição portuguesa, cujos ecos chegaram à Colônia com a instalação do tribunal na Bahia.

Em 1497, d. Manuel I, rei de Portugal, havia convertido "por decreto" todos os judeus do reino ao catolicismo. Naturalmente, um número considerável manteve, em segredo, as práticas religiosas judaicas.

Em 1536, foi criado o tribunal da Inquisição em Lisboa, intrinsecamente unido à Coroa portuguesa. Sua principal função era investigar a sinceridade da "conversão" dos cristãos-novos - como ficaram conhecidos os judeus que, ao menos formalmente, tiveram de abraçar a fé cristã.

"Pretendiam descobrir o que essas pessoas pensavam, sentiam e faziam", afirma Anita Novinsky, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores especialistas brasileiras em cristãos-novos.

Criptojudeus. Um cenário hostil na Europa obrigou muitos cristãos-novos a se lançarem ao mar rumo ao continente americano. "Podemos dizer com segurança que eles foram responsáveis pelo primeiro impulso econômico e criativo do Brasil Colônia", aponta Anita. "Os plantadores de cana-de-açúcar pioneiros do Nordeste eram cristãos-novos."

Suzana explica que alguns cristãos-novos aderiram ao catolicismo. Outros se afastaram de qualquer prática religiosa. Mas houve quem mantivesse as tradições judaicas na sua vida privada: eram os chamados criptojudeus.

Os pesquisadores sugerem que o primeiro dono do casarão do Pelourinho pode ter sido um criptojudeu que, mesmo durante a perseguição inquisitorial, realizava práticas religiosas judaicas a poucos metros da tradicional Igreja de São Francisco. Não se descarta a hipótese de o local ter servido como uma "sinagoga da resistência".

"Determinamos os proprietários do casarão até a primeira metade do século 19", afirma Suzana, que participou da incursão pelos registros cartoriais e arquivos históricos de Salvador. "Já temos hipóteses para os donos no século 18. Mas queremos chegar ao século 17 para desvendar a história do homem que edificou a mikvé."

Acaso. Em 2008, um judeu ortodoxo hospedado no Hotel Villa Bahia procurou o gerente do local, o francês Bruno Guinard, para perguntar qual seria o uso original daquela construção tão singular, "que possuía todos os pré-requisitos para funcionar como uma mikvé", até mesmo uma caixa d'água para armazenar a água da chuva. Guinard ouvira de um historiador que aquele equipamento era usado para "banhos portugueses".

Na mesma época, a nutricionista baiana Berta Wainstein visitou o local e conversou com Guinard, sugerindo também a possibilidade de se tratar de uma mikvé. Surgiu assim o desejo de criar um grupo de pesquisa para confirmar o caráter judaico da construção.

Berta afirma que, além de determinar a identidade do construtor da mikvé, o grupo procura apoio para criar o primeiro centro de referência em estudos sobre cristãos-novos no País.

O centro poderia ser instalado em uma casa situada nos fundos do hotel. Dessa forma, seria possível contar com um acesso para visitantes que desejam ver a mikvé sem atrapalhar o cotidiano dos hóspedes.

A mikvé foi restaurada e está sendo conservada pelo hotel, contudo não está aberta para a visitação pública.

Alexandre Goncalves, Estadaos