Famílias do Ceará com Origem Judaica

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Muitas famílias tem interesse em saber se de fato possuem origem judaica, recebo quase todas as semanas emails, e alguns telefonemas sobre esse tema, com isso, penso que seria interessante colocar aqui um pouco da minha experiencia, e uma orientação de como fazer a sua arvore genealógica.

Bom, em primeiro lugar, a maior parte das famílias do Ceará assim como do resto do Brasil, podem ser descendentes de judeus que foram batizados em 1497, um ano antes à esta data o rei D. Manuel, decretou como parte do dote de casamento com a filha dos Reis Católicos da Espanha, a expulsão dos judeus, como a grande parte já não teve recursos para fugir, eles foram batizados no ano acima, ficando então com uma condição social desfavorável, então nascia assim os Cristãos-novos portugueses.

Durante a colonização do Brasil e de outras terras do Ultramar, muitos deles foram degredados, outros foram por livre e espontânea vontade, e até mesmo chegaram a se destacarem no comércio do Atlântico, já muitos outros fugiram para países mais tolerantes, como Império Otomano (atual Turquia), Holanda, Inglaterra, Alemanha, Itália, etc.

Algumas considerações sobre a presença de Cristãos-novos nas regiões do Brasil:

Existe um equivoco muito recorrente, que o Nordeste é a região que recebeu a maior quantidade de Cristãos-novos, essa afirmação que chega a ser equivocada talvez seja fruto da Invasão Holandesa, que trouxe vários judeus para Recife, assim nascendo a primeira Sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel.
Entretanto sabemos que os judeus que vieram da Holanda para cá, acabaram retornando em sua esmagadora maioria para os Países Baixos, alguns até foram para outras Colonias como a de Nova Amsterdam, hoje a atual cidade de Nova Iorque.
No século XVIII no livro da Dra. Anita Novinsky [1], temos que pelos registros de denunciados por judaísmo, os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, e Minas Gerais, concentraram um numero bem maior deles, isso não significa que não existiram cristãos-novos no Nordeste, inclusive um episódio trágico marcou a história deles no século XVIII na nossa região, a chamada “Devassa da Paraíba”, que resultou em várias prisões pelo Nordeste, e algumas poucas fugas bem sucedidas, como é o caso da Josefa Maria dos Reis, filha dos Cristãos-novos Miguel Henriques da Fonseca e Joana do Rego, natural da Paraíba que veio a se estabelecer na Capital do Ceará, a então cidade de Fortaleza [2].

Como encontrar Cristãos-novos? (O problema dos Registros):

Um problema para identificação dos Cristãos-novos, é o fato de que na segunda metade do século XVIII, o Marquês de Pombal mandou destruir os Róis de Finta, que permitiam a identificação dos Cristãos-novos que pagavam um tributo para o Reino, então para a identificação destes personagens seria então necessário a consulta destes documentos:

– Processos da Inquisição de Lisboa, Coimbra, Évora (Disponíveis os de Lisboa, e alguns outros de Coimbra e Évora, no site da Torre do Tombo [3]).
– Livro das Denunciações do Santo Oficio (Ocorreu em 1593 uma em Pernambuco).
– Denuncias contra Cristãos-novos em processos da Inquisição (Onde o réu, confessava conhecer outros Cristãos-novos, e dizia o nome dos que sabia que eram judaizantes), e outros livros do Santo Oficio, como o Caderno do Promotor, onde constam várias denuncias de pessoas contra muitos Cristãos-novos.
 – Outros documentos, como o Rol de Finta de Barcelos, Rol de Finta da Ilha da Madeira, Rol de Finta dos Açores (Acredito que somente estes três se preservaram durante o decreto de destruição desse tipo de documento pelo Marquês de Pombal).

Genealogia é a melhor pedida:

Alguns sites, talvez motivados em fazer virais na internet, trazem consigo alguns Hoaxes com listas de sobrenomes supostamente judaicos, na realidade sobrenomes não são uma forma efetiva de se ter certeza da origem judaica, já que os Cristãos-novos adotavam nomes bem portugueses, assim encontramos em registros antigos Cristãos-novos com o nome Alves ou Alvares, outras pessoas com o mesmo sobrenome sendo Cristãs-velhas (Designação de pessoas que não tinham origem judaica), assim a melhor maneira de se ter certeza que você descende de Cristãos-novos é fazendo sua arvore genealógica, ou seja coletando dados em documentos de seus avós, bisavós, trisavós, e assim por diante.

Para uma pesquisa nos livros paroquiais, temos os seguintes registros:

– Registros de Nascimento/Batizados.
– Registros de Casamento.
– Registros de Óbito.
– Outros registros (Dispensas de consanguinidade, Crismas, Justificações, etc).

Para uma pesquisa em fontes secundárias, temos entre muitas outras:

– Nobiliarquia Pernambucana (Disponível online [4], escrita por J.V. Borges da Fonseca, na segunda metade do Século XVIII, com várias famílias de Pernambuco, e algumas de outras localidades como o Ceará, Paraíba, e Sergipe)

– Revistas do Instituto Histórico do Ceará (Com vários artigos, e alguns deles tratando de genealogias de diversas famílias do Ceará).

– Entre muitas outras fontes, como a Cronologia Sobralense do Pe. Sadoc, livro obrigatório para quem tem raízes na cidade de Sobral – CE, e quer montar a arvore genealógica, pois traz registros de várias famílias, e é muito importante para construção de suas genealogias.

Temos alguns sites para realizar a genealogia:

Familysearch.org [5]– site com várias paroquias do Brasil, uma vez sabendo qual cidade e paroquia que sua família é natural, você pode pesquisar nas coleções digitalizadas, das quais eu já deixo o link, assim olhando os livros paroquiais a procura dos registros dos antepassados.

Tombo.pt [6] – site que redireciona a pessoa para os livros paroquiais de Portugal, ideal para quem tem antepassados portugueses.
OBS:
Se você tem antepassados portugueses, para uma pesquisa nos registros de Portugal, recomendo o site:
http://genealogiafb.blogspot.com.br/2014/07/como-iniciar-investigacao-genealogica.html

Também há grupos no facebook, onde é possivel trocar informações, e compartilhar duvidas assim como descobertas:

Genealogia Anussim – Grupo muito respeitado, do qual eu sou moderador, também é possivel adquirir no grupo com o meu amigo e também moderador Cesar Machado, a apostila dele que ensina passo a passo como montar a genealogia em Cristãos-novos:

https://goo.gl/SPXHeq

Genealogia FB – Grupo de estudos genealógicos, onde é possível trocar informações, e acompanhar noticias do blog deles supracitado:

https://goo.gl/4wumiy

Famílias do Ceará com Origem Judaica:

Durante minhas pesquisas, eu encontrei, assim como também através de outros pesquisadores tomei conhecimento de algumas famílias do Ceará com origem judaica, vale colocar aqui também que o Dr. Candido Pinheiro Koren de Lima, publicou livros com genealogia de várias famílias do Ceará, em judeus Sefarditas, os Livros podem ser adquiridos na Livraria Cultura, e são excelentes para quem faz parte da família citada no livro, e assim deseja construir a genealogia nos Cristãos-novos.

As seguintes famílias possuem registros de antepassados cristãos-novos, não tenho conhecimento de todas as famílias, por isso a lista ainda é incompleta logo tem famílias que certamente tem origem judaica e eu ainda não tenho conhecimento, a lista também  não significa que todos que portarem o sobrenome aqui citado serão de origem judaica, mas quem alem do sobrenome pertencer à mesma família da qual a região eu irei citar, tem grandes chances de ser descendente de Cristãos-novos:

1 – Família Furtado, no Ceará (Baturité, Quixeramobim, Jaguaretama), e no Rio Grande do Norte (Ceará-mirim, Santa Cruz):

A família Furtado das regiões mencionadas, que possuem como patriarca o português da Ilha da Madeira, Antonio Furtado de Mendonça e Menezes, que veio para o Ceará em 1810, possuem a linhagem até os Cristãos-novos da Ilha da Madeira da família Ribeiro, que viveram em Funchal, e são também descendentes de um Rabino de nome Moisés Boino.

2 – Família Ximenes de Aragão, no Ceará (Sobral, e região de Acaraú):

Descendentes de dois irmãos que foram para Sobral no fim do século XVIII, a família Ximenes possui a linhagem em vários Judeus Sefarditas, inclusive no ultimo Rabino de Castela, Abraham Senior.

3 – Família Lopes Freire (Sobral):

Família da qual eu descendo pelo lado paterno, o ramo desta família que é oriundo do casamento de Alexandre Lopes Freire, e Ana Francisca do Sacramento, possuem a ancestralidade (através de Ana Francisca do Sacramento), no Capitão Antonio Coelho de Albuquerque, casado com Mariana Messias de Menezes, Antonio Coelho de Albuquerque é bisneto do cristão-novo Antonio Simões Colaço, que foi processado pela inquisição de Lisboa por volta de 1650.

4 – Família Albuquerque Lima (Quixeramobim):

A família Albuquerque Lima, da região do Quixeramobim, possui como patriarca o pernambucano Manuel Alexandre de Albuquerque Lima, possuem a ancestralidade judaica na famosa Cristã-nova Branca Dias, e também na família de Francisco Mendes de Leão, e Isabel Mendes (filha de Fernão Lopes e Branca Rodrigues), cristãos-novos do Alentejo, pela via de Madalena Barbosa, casada com Jorge Leitão de Albuquerque, ancestrais do já citado Manuel Alexandre.

5 – Família Costa Farrapo (Sobral):

Possui como patriarca o açoriano Manuel da Costa Farrapo, segundo os Nobiliarios dos Açores, a mãe de Manuel da Costa, que se chamava Isabel Moniz descende do casal Manuel Alvares Pinheiro e Isabel Gonçalves, cristãos-novos do Norte de Portugal, cujo um filho do casal de nome Henrique Soares foi processado em 1618 pela Inquisição de Lisboa.

6 – Família de Aguiar Arruda (Sobral):

Nem todos os Arrudas de Sobral possuem essa origem, o tronco nasce do casamento de João José de Arruda e Maria Quitéria de Araújo, a ultima descende de Brites de Vasconcelos, que era descendente da cristã-nova Branca Dias.

7 – Família Holanda Cavalcante (Sobral):

Nem todas as pessoas da família Cavalcanti de Sobral certamente vão ter esta origem, mas os que descendem do casal Arnal de Holanda Cavalcante e Beatriz de Vasconcelos Medeiros, através de Arnal descendem de Belchior da Rosa, que se apresentou na Denunciação de Santo Oficio de Pernambuco, e que segundo alguns trabalhos seria filho do Dr. Alvaro Nunes que fugiu para a Antuérpia.

8 – Família Bezerra de Menezes (Várias partes do Ceará):

As pessoas do tronco dos Bezerras de Menezes, que possuem ancestralidade no casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronilha de Menezes, através de Bento possuem ancestralidade em Simoa da Rosa, que segundo revistas do Instituto Histórico do Ceará era irmã, ou segundo meu primo pesquisador Eduardo Bezerra, era filha de Belchior da Rosa (já citado), também possuem possivelmente origem judaica em Bento Rodrigues da Costa (pai de Bento Bezerra) que era português de Lisboa, e segundo algumas fontes os pais de Bento foram processados pela inquisição.

Considerações Finais:

Existem muitas outras famílias das quais eu ainda não citei, mas como foi registrado a maior parte das famílias com origem judaica que eu tive noticia, são da região de Sobral, também vale lembrar que ter origem judaica não é garantia que você será aceito em uma comunidade judaica, entretanto pode ser que abra portas, visto que há a opção de uma conversão por duvida, que demanda menos tempo.

Com isso encerro meu post, e desejo à todos os leitores uma boa sorte nas pesquisas!

Fontes e Links:

[1] – Gabinete de investigação: uma “caça aos judeus” sem precedentes, de Anita Novinsky. https://goo.gl/fL4H3o

[2] – Os Cristãos Novos. na Formação da Famílias Cearense, Revista do Instituto Histórico do Ceará de 1975, autoria de Vinicius Barros Leal.

[3] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo, (http://digitarq.arquivos.pt/).

[4] = Nobiliarquia Pernambucana, Anais da BN de 1925 e 1926, (http://goo.gl/aZXrxF)

[5] – Familysearch.org, site com vários livros paroquiais, mantido pela Igreja dos Mórmons (https://goo.gl/OwRuZf).

[6] – Site Tombo para acesso aos livros paroquiais online de Portugal, (http://tombo.pt/).

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