O judeu português que fazia tremer S. Petersburgo

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Como pode um simples grumete (aprendiz de marinheiro) tornar-se um dos homens mais poderosos da Rússia? O jornalista José Milhazes, correspondente da SIC em Moscovo, dá uma pista: “António de Vieira era uma pessoa extremamente competente, activa e corajosa”.

Nascido no Minho, Vieira terá emigrado para a Holanda na companhia do seu pai. Não é certo se foi ali ou em Londres que se deu o encontro que lhe mudaria a vida. O episódio foi assim descrito por um estudioso russo: “Quando comandava um navio, Pedro I prestou atenção a um jovem marinheiro, quase criança, com traços fisionómicos hebraicos […]. Quando terminaram as manobras, o czar mandou chamá-lo, elogiou a sua habilidade, deu-lhe um táler, perguntou-lhe quem era e donde vinha. O marinheiro respondeu rapidamente que se chamava Anton Devier, que era filho de um judeu português que emigrara para a Holanda”. A partir daí, o português e o czar criaram uma relação de absoluta confiança e o antigo grumete conquistou postos de relevo, como chefe da Polícia de S. Petersburgo. “Só o seu nome fazia tremer os habitantes da nova capital”, diz o autor do livro.

Recorda-se da primeira vez que ouviu falar de António de Vieira?

Foi por volta de 1977, quando me dediquei ao estudo das relações entre Portugal e a Rússia. Este tema sempre me interessou muito enquanto historiador. O próprio António de Vieira e muitos dos seus descendentes são personagens históricos que atraem a curiosidade.

O que significa exactamente o estatuto de 'favorito' do czar?

'Favorito' significa um colaborador próximo do czar. Era alguém em quem Pedro o Grande confiava tarefas de grande responsabilidade, de importância estatal.

O que poderá ter levado o czar a interessar-se por este modesto marinheiro e, mais tarde, a afeiçoar-se a ele?

António de Vieira era uma pessoa extremamente competente, activa e corajosa. Além disso, tinha uma qualidade rara na Rússia: era incorruptível.

A corrupção era então um problema grave na Rússia?

A corrupção era e continua a ser uma das maiores chagas no tecido social da Rússia. Tal como no passado, os próximos do czar, ou seja, os homens próximos do Presidente Putin, preocupam-se seriamente com o enriquecimento não só de si próprios, mas também dos seus familiares, amigos e clientes.

Há rumores de Vieira e Pedro terem mantido uma relação amorosa. Os rumores têm fundamento?

Há de facto rumores sobre as tendências homossexuais de Pedro o Grande, mas esse é um tema tabu no estudo da história russa e muito pouco estudado. Não encontrei qualquer prova de que tenha havido tal tipo de relações com o judeu português.

Que país encontrou Vieira quando chegou à Rússia no início do século XVIII?

Um país enorme, mas atrasado. É de salientar que António vinha da Holanda ou de Inglaterra, dois dos países mais desenvolvidos do mundo de então.

O que seria mais estranho para um visitante português? A comida? Os Invernos? Os hábitos? As mentalidades?

Tudo era estranho para um estrangeiro nesse longínquo país, mas, pelos vistos, o judeu português soube superar tudo, mesmo o Inverno da Sibéria.

Vieira participou na construção de S. Petersburgo. Ainda podemos ver marcas concretas da sua passagem?

Há documentos da sua participação activa na construção da nova capital russa, desde a criação do serviço ao combate de incêndios até à manutenção da segurança.

O facto de ter sido construída de raiz no início do século XVIII tornou S. Petersburgo uma cidade com uma cultura própria, diferente de uma cidade mais antiga como Moscovo?

São Petersburgo e Moscovo são cidades completamente diferentes. A primeira é tipicamente europeia, enquanto a segunda tem muito de russo na sua arquitectura. Os habitantes de S. Petersburgo acham-se mais europeus do que os moscovitas. Existe uma especial concorrência entre as duas e São Petersburgo sentiu-se sempre marginalizada depois de deixar de ser capital em 1918.

Na corte russa havia outro português, o bobo João da Costa. Qual era a função do bobo? Dizer piadas, fazer truques, animar o soberano, ou tinha também responsabilidades mais sérias?

Bobo era uma função muito mais importante do que alguns imaginam. João da Costa era uma pessoa extremamente culta e, em alguns casos, uma espécie de conselheiro de alguns dos czares russos. Pedro o Grande gostava de conversar com o bobo de origem portuguesa sobre os mais variados temas, incluindo religiosos.

Após a morte do seu protector (Pedro o Grande), Devier acabou por cair em desgraça e foi deportado para a Sibéria. Como foi a sua vida no desterro?

Não desistiu, não baixou os braços. Continuou a trabalhar, nomeadamente na área da navegação. Talvez o trabalho o tenha ajudado a sobreviver na Sibéria durante os 15 anos que lá passou.

Tal como António de Vieira, o José Milhazes também foi para a Rússia muito jovem. Já havia alguma ligação ao país ou foi obra do acaso?

A ida para a Rússia foi obra da política. A atracção pela ideologia comunista, a curiosidade de ver experiências sociais novas. Quando se é jovem, deve-se sonhar e acreditar, mesmo que depois venham as desilusões.

Quando começou a ter as primeiras desilusões?

Trata-se de um processo muito lento, pois a desilusão aumenta à medida que se vai entrando na sociedade soviética, quando se começa a fazer amizade com os soviéticos, a conhecer os seus problemas e dificuldades. Inicialmente, ainda pensei que o socialismo soviético era renovável, mas depois compreendi que o regime não tinha conserto.

Quais as maiores dificuldades com que se deparou na adaptação ao modo de vida russo?

Para mim, praticamente tudo foi novidade, mas os portugueses têm grande capacidade de adaptação. Além disso, arranjei rapidamente novos amigos, nomeadamente russos, que ajudaram à minha integração. Segui sempre o princípio de que se em qualquer lugar do mundo se encontra um português, eu também posso viver e adaptar-me a quaisquer situações. Tive sorte porque a Rússia é um país fascinante.

Já falava russo quando foi viver para a Rússia?

Não sabia nada de russo, aprendi na Faculdade Preparatória da Universidade de Moscovo.

jose.c.saraiva@sol.pt

José Cabrita Saraiva, Sapos