Portugal vai relembrar Zacut, o rabino de Salamanca que guiou Vasco da Gama

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A cidade portuguesa de Leiria, que aspira a ser Capital Europeia da Cultura em 2027, vai recuperar a memória de Abraham Zacut, um judeu natural de Salamanca cuja obra guiou Vasco da Gama durante as suas expedições à Índia. 

Zacut é o autor de uma grande obra sobre astronomia intitulada "Almanach Perpetuum" ("A Grande Composição", 1478), que iniciou durante os seus estudos na Cátedra de Astrología da Universidade de Salamanca, onde vivia sob a proteção do então bispo Gonzalo de Vivero, que o incentivou a desenvolver o dito trabalho. 

Após ser expulso em 1492 de Espanha pela sua condição de judeu e procurar refúgio em Portugal, imprimiu pela primeira vez a sua grande obra na imprensa judaica Orta de Leiria que guiou o navegante luso Vasco da Gama nas suas expedições à Índia. 

De acordo com o próprio Consistório luso, a obra será recriada pela importância que, no século XVI, este rabino alcançou devido aos cálculos exatos sobre a situação e os movimentos dos corpos celestes.

Além disso, devido ao importante papel de Leiria, cidade de 125.000 habitantes no litoral, na amparada de judeus procedentes da Espanha no final do século XV, o presidente recuperará uma antiga sinagoga no centro histórico. 

Desta maneira, reabilitarão a Igreja da Misericórdia, que foi levantada sobre essa antiga sinagoga, e ali instalado o Centro de Diálogo Interculturas, que fará parte da Rede de Judiarias de Portugal e da Rota do Sefardita. 

Zacut, que se instalou no dito bairro judaico de Leiria quando chegou em 1492, afirmou-se como astrónomo da coroa de Portugal às ordens do rei João II.

No entanto, após os acordos entre Espanha e Portugal, este judeu de salamanca, que também viveu na Sierra de Gata de Cáceres, preferiu emigrar no norte da África em 1497 para instalar-se em Tunísia. 

Algumas bibliografias deram a Zacut uma grande influência sobre Vasco da Gama pela descoberta de novos mundos, como é o caso da obra "Lendas da Índia" do cronista luso Gaspar Correia. 

No entanto, a sua obra científica "A Grande Composição" colocou-o como um dos astrónomos e matemáticos mais importantes da sua época, formado na prestigiada Universidade de Salamanca, que tinha criado a Cátedra de Astrología no ano de 1460 para pôr fim assim aos mitos astrológicos da Idade Média. 

Os textos foram plasmados num conjunto de tábuas onde sobressai uma na qual há uma lista de estrelas onde se indicam os valores da magnitude, longitude e latitude das estrelas e os nomes dos planetas associados a ditos corpos celestes. 

Após completar várias das suas obras e dedicar-se ao ensino na Tunísia, decidiu colocar rumo à Turquia e instalar-se mais tarde em Damasco, onde faleceu em 1515 ou, segundo outros estudiosos, em 1522. 

Para colocar em evidência todo o potencial religioso desta cidade portuguesa, o Presidente de Leiria e a Diocese Leiria-Fátima desenharam uma Rota de Património Religioso que inauguram hoje e que decorrerá na Igreja de Santo Agostinho ou no Santuário de Nossa Senhora da Encarnação, entre outros centros. 

Esta nova rota completa-se com um ciclo de conferências sobre o património e religião que será realizada entre os meses de janeiro e fevereiro.

Carlos Garcia, EFEs